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Domingo, 22 julho de 2007   edições anteriores
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  'Reza mesmo, tia. Obrigado.'

Viviane Kulczynski, enviada especial a Porto Alegre

Foi uma longa madrugada a do dia 17 de julho na casa dos Dalprat em Porto Alegre. Longa como haviam sido as anteriores e como seriam as seguintes.

De férias na cidade, na casa do avô Ítalo, os irmãos Caio, de 12 anos, e Rafaella, de 17, aproveitaram para fazer o que em dias normais, durante o ano letivo em São Paulo, não podiam: ver TV até tarde, ficar no videogame à exaustão, jogar conversa fora até altas horas. Programação recheada de refrigerante, bolachas e bolo com cobertura.

Às três da manhã, a TV ainda estava ligada na MTV - Rafaella adorava videoclipes. Isso até perder o poder sobre o controle remoto. Era a vez de Caio, no adiantado da hora, já pelas quatro, ainda tentar ver desenho animado. E não é que achou num canal a cabo uma das animações japonesas que tanto adorava?

Na última vez em que a tia Carla olhou o relógio, eram 5h30. Ainda passava desenho na telinha, mas os meninos já estavam no terceiro ou no quarto sono. A TV foi desligada e o silêncio voltou aos cômodos. Ruído, só o dos poucos carros na Avenida Nilo Peçanha.

No quarto, barulho e movimentação de novo só às 11h30. Era Carla, que insistia em dar beijos e sacudir a dupla, que entre bocejos e resmungos seguia na cama, debaixo das cobertas. Lá fora o frio era intenso e a chuva fina só baixava a sensação térmica. Os apelos para pularem da cama não surtiram efeito imediato. Nem as promessas de café da manhã gostoso. Eles seguiram cochilando e acordando a cada meia hora seguinte, nas tentativas de Carla de fazê-los levantar.

O limite foi uma da tarde. O cardápio havia sido acertado de antemão. Todos de acordo, a despedida teria purê de batata e peito de frango à milanesa. Nada de salada. Havia panquecas de carne também. Sobraram intactas as panquecas. A Coca-Cola acabou. E sobremesa não tinha.

Duas da tarde, hora do banho. As roupas de viagem estavam separadas. A mala foi fechada na segunda à noite, com a ajuda de outra tia, Luciana, advogada e especialista da família em organizar a bagagem, com tudo bem dobradinho. A mala dos meninos fora comprada para a última viagem à cidade, nas férias do fim do ano. Era uma só, grande, para as roupas dos dois. Outra pequena trazia sapatos e os brinquedos de Caio. O menino não abria mão de carregar bonecos de plástico e o videogame com as inseparáveis fitas de jogos. Muitos. Daqueles que permitem jogar beisebol com o atleta postado diante da TV, usando luva e taco de mentirinha, mas dando socos de verdade no ar, repetidos na tela.

O videogame foi motivo de longa discussão. A irmã e a tia Luciana queriam que ele voltasse para São Paulo numa sacola de mão. Isso depois que alguém comentou sobre extravio de bagagem. Não valia a pena correr o risco de perder algo tão valioso para o menino. Da mesada, R$ 2 mil foram aplicados nisso. Dinheiro juntado durante muito tempo.Alegações foram, alegações vieram, e ele se convenceu de que era melhor carregar o videogame a bordo. Era mais seguro. Tão seguro quanto estariam os iPods dos dois, dos quais não se separavam de jeito nenhum.

Banho tomado, mala fechada, Luciana ainda passou na costureira para buscar um pijama de Caio, que fora para o conserto. Enquanto esperavam, houve uma guerrinha de celulares na sala. Joga daqui, joga dali, sob o olhar atento do avô Ítalo. Rafaella perdeu. O aparelho da menina acabou atrás do sofá. E o medo de tê-lo quebrado? Estavam lá fotos e o mais importante, a troca de mensagens com o rapaz com quem “ficava”. A palavra “namorado” não foi usada nenhuma vez. Mas já tinha as bênçãos do irmão e da mãe, Christiane da Costa Bueno, uma designer de 49 anos.

A distância nas férias, no entanto, não arrefeceu a relação. Era um tal de torpedos, e-mails, ligações em vários horários. Uma conta que ainda vai chegar. O celular resistiu à queda e estava pronto para mais uma enxurrada de mensagens.

O vovô Ítalo, com seus 77 anos e um enfisema pulmonar que o faz viver preso a um balão de oxigênio quando está em casa, se acomodou no quarto. Não queria que o vissem chorar. Já estava com saudade dos netos, únicos, que atualmente só via nas férias de verão e de inverno. Visita cumprida religiosamente. “Ele não vai? Ai, vou sentir muita saudade de ti, vovô”, disse Caio, já com sotaque misturado, quando ouviu, sem querer, que ele não os acompanharia.

“Vem nos ver em São Paulo, vovô, agora que vamos morar com o papai”, cobrou Rafaella. Os garotos, que desde a separação dos pais, há quatro anos, moravam com a mãe, se preparavam para ter a companhia do pai, Ítalo Luiz Dalprat Junior, gerente comercial, de 46 anos. A mudança estava programada para a quarta-feira, dia seguinte à chegada prevista de Caio e Rafaella. Sobre a visita, o avô, prometeu pensar. Ele bem que ia com mais freqüência vê-los e ficava temporadas na capital paulista. Isso quando sua mulher, Léa Stella Miotto Dalprat, era viva. Ele é viúvo há oito anos.

O choro dos três na despedida foi abafado pelo interfone. Era o porteiro chamando. Luciana, no seu Peugeot 307 azul metálico, estava a postos. Eram 15 horas. “O avião não espera.” E lá foram eles, na companhia de Carla, elevador abaixo, seis andares. Tempo para pensar se haviam esquecido de alguma coisa. Nadinha. Nenhum objeto por lembrança, como agora adoraria o avô.

Faltavam 20 minutos para as 16 horas quando chegaram ao Aeroporto Internacional Salgado Filho, na zona norte de Porto Alegre. Caio estava tenso, inquieto. Temia esquecer a sacola com o videogame no avião. Para aliviar o estresse do pequeno, a zelosa Rafaella se encarregou do pacote. Assim ele relaxava.

Fizeram o check-in, apresentaram documentos e a autorização do juizado para que viajassem sozinhos. Grandinhos, não precisaram usar aqueles crachás de “menores desacompanhados” que as companhias aéreas penduram no pescoço da molecada, para que não se percam e tenham atendimento quase VIP. Caio aprovou a sensação de independência, mesmo ainda dormindo com bichinhos de pelúcia.

Ganharam os cartões de embarque para o vôo JJ 3054, da TAM, marcados com 12 A e 12 B, assentos antes da metade do Airbus 320 e fileiras à frente da saída de emergência. Ainda tinham um tempinho antes de passar pelo raio X e ir para a sala de embarque. Foram às compras. Caio queria mangás, mas só conseguiu livrinhos de palavras cruzadas. Rafaella ganhou um novo livro de Dan Brown, que acomodou na bolsa ao lado da maquiagem: rímel, lápis de olho e batom, presentes de Carla para a sobrinha vaidosa.

Já eram 16h20 quando Carla e Luciana anunciaram que estava na hora do adeus. Olhos com lágrimas, Carla agradeceu pelos dias maravilhosos, pediu “desculpa por alguma coisa”, recomendou juízo e prometeu rezar. “Reza mesmo, tia, obrigado”, foi a última coisa que ouviu de Caio. Abraçados, ela percebeu que o menino estava crescido. Ele espichou quatro centímetros desde que esteve em Porto Alegre, em dezembro, chegando a 1,68 metro. E imaginou que, no Natal, já a teria ultrapassado e chegado perto do 1,74 metro da irmã. Foi a última impressão.

O que eles fizeram depois de entrar para a sala de embarque ninguém sabe. Talvez tenham feito um lanche, talvez tenham discutido quem carregaria a sacola com o videogame, talvez tenham ficado ouvindo música. Não ligaram para ninguém. Embarcaram e partiram às 17h16 rumo a São Paulo.

No Aeroporto de Congonhas, Ítalo Junior e Christiane, a Pituca, aguardavam com ansiedade pelos filhos, depois de 12 dias de saudade. Anunciada a tragédia, a imagem de desespero da mãe, transmitida pela TV, foi o retrato máximo da dor. Dor que não tem prazo nem perspectivas de passar. E que foi revivida durante o reconhecimento dos corpos no Instituto Médico Legal (IML).

Após identificar os filhos, Junior ligou para casa em Porto Alegre. Relatou em detalhes o que viu. Caio Augusto Bueno Dalprat, o garoto que estava na 7ª série, tinha o ar sereno, acreditou o pai. Trazia no peito uma daquelas correntes típicas de soldados americanos em combate, com duas plaquinhas de metal e, no seu caso, mais uma medalhinha de Nossa Senhora, presente de Carla, que a guardava desde a missa de sétimo dia da mãe. Rafaella Bueno Dalprat, aluna do 1º ano da faculdade de Rádio e TV, estava mais machucada. Os irmãos foram enterrados no Cemitério do Morumbi, na sexta-feira.


16h20
foi o momento em que tias Carla e Luciana abraçaram os sobrinhos antes do embarque

'Ele não vai? Ai, vou sentir muita saudade de ti, vovô.”
CAIO AUGUSTO BUENO DALPRAT,
QUE MORREU NO ACIDENTE DO VÔO 3054, AO SABER QUE O AVÔ ÍTALO NÃO O LEVARIA ATÉ O AEROPORTO


HISTÓRIAS INTERROMPIDAS
NETA DE EX-GOVERNADOR

Avô vítima de acidente aéreo


A advogada Simone Lacerda Westrupp, 28 anos, trabalhava na Arsenal Fundo de Investimentos em São Paulo e viajava a Porto Alegre a trabalho. Solteira, era neta do ex-governador de Santa
Catarina, Jorge Lacerda, que também morreu em um acidente aéreo, em 1958. O corpo de Simone foi identificado na quinta-feira pelo IML de São Paulo.

'Nessas horas a gente fica sem palavras. Ele era um grande homem, um grande pai e vai fazer muita falta.”
CLEIDE GAVIOLI
VIÚVA DE ROBERTO GAVIOLI

PROFESSOR
Voltava de uma palestra


O professor Roberto Gavioli, 48 anos, era visto por seus colegas como um grande palestrante na área de informática. Ele foi a Porto Alegre para mais uma palestra, pelas Faculdades Associadas de São Paulo. Era casado e pai de três filhos - o mais novo de apenas 3 meses. Seu corpo foi enterrado às 16h de ontem, no cemitério da Lapa, em São Paulo.



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