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Uma cidade inteira de luto
Todos sentem a perda e homenageiam as vítimas do vôo 3054. A densa fumaça do incêndio ainda parece pairar sobre a Capital
Fernanda Aranda, fernanda.aranda@grupoestado.com.br
Eles não conheciam as vítimas, não foram para a porta do Instituto Médico Legal (IML), alguns nunca nem viajaram de avião. Ainda assim, choram pela tragédia e afirmam sentir a dor dos parentes dos passageiros do vôo JJ 3054.
A fumaça preta do incêndio no Aeroporto de Congonhas, na noite de terça-feira, tomou conta da Capital e trouxe o luto para os quatro cantos de São Paulo. Hoje, são 11 milhões de pessoas que carregam as marcas do maior acidente aéreo.
Catadores de lixo, empresários engravatados, frentistas, taxistas, vendedores, médicos. Em todas as conversas de grupos diferentes, o assunto que prevalece são os corpos ainda não reconhecidos, as vidas interrompidas e as perguntas que estão sem resposta. A angústia está espalhada no País e no mundo, mas a sensação do impacto é mais forte para os “vizinhos” do acidente.
“Nunca vi uma indignação tão forte”, falou o vendedor de cachorro-quente, Ricardo Porto, 34 anos, que trabalha na Avenida Marquês de São Vicente, Zona Oeste. “No dia seguinte do acidente e até agora, meus clientes choram na hora do almoço, lamentam o que aconteceu. Eu mesmo estou em choque”, disse Porto, que chegou a procurar na lista de passageiros alguém conhecido, mesmo tendo a certeza de que era impossível.
Do outro lado da Cidade, em um salão de beleza na Zona Leste, a manicure Eunice Rodrigues Martins, 53 anos, disse que precisou consolar muitas mulheres que sentaram na sua mesinha para fazer a unha. “Elas são mães, assim como eu. O desespero fica nítido nessas horas, a gente lembra de todas as pessoas queridas que já perdeu. Tive vontade de ir até o local para tentar ajudar alguém”, conta ela, que nunca chegou perto de um aeroporto, muito menos sabe como é um avião por dentro.
A comoção está em todas as casas, até mesmo nas que não moram amigos ou parentes das vítimas. Mas isso tem explicação psiquiátrica. “É o que chamamos de fenômeno de pertencença”, disse o psiquiatra Eduardo Ferreira-Santos, responsável pelo Grupo de Atendimento das Vítimas de Violência Urbana do Hospital das Clínicas (HC) de São Paulo. “Sabe quando jogamos uma pedra na água e forma aquela série de círculos em volta? O impacto se alastra e, quanto mais perto do centro, maior é a dor. Mas outras camadas formadas são reflexo do trauma, as vítimas secundárias, o caso dessas pessoas.”
A declaração do artilheiro da seleção brasileira de futebol nos Jogos Pan-americanos, o meia Lulinha (Luis Marcelo dos Reis, 17 anos), ilustra essa síndrome de posse. Quando ficou sabendo do acidente, o jogador disse: “Eu, por ser de São Paulo, estou sentindo mais do que todo mundo”. O psiquiatra do HC ainda explica que a sensação de quem mora em São Paulo é mesmo de que a dor é maior aqui. “Isso não é uma verdade absoluta. Todo o Brasil chora pelas vítimas.”
E por falar em Pan, até as medalhas conquistadas pelos atletas do Brasil ficaram em segundo plano. Em um bar na Vila Madalena, Zona Oeste, quatro homens tomavam cerveja na última sexta-feira. Na rodinha de conversa, nada de mulheres ou futebol. Eles estavam apáticos, as risadas não apareciam, as piadas eram proibidas. Até se emocionavam com as cenas de guerra relembradas. “ Não há como comemorar os jogos vencidos. As medalhas não apagam o sofrimento”, disse o comerciante Rivaldo José Souza, 50 anos.
O psiquiatra Marcelo Feijó de Mello, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), especializado em violência e estresse, diz que, quando acontece um acidente desse porte, as pessoas costumam depositar todos os seus traumas, angústias e problemas no fato, por isso o sentimento de tristeza é geral. “Os traumas pessoais e coletivos são reativados. Todas as feridas que já estavam cicatrizadas abrem de novo. A sensibilidade aumenta.”
O carroceiro José da Silva Gomes, que ganha pouco mais de R$ 140 por mês e nos seus 62 anos de vida viajou uma única vez de caminhão (deixou Goiás para buscar oportunidade de trabalho na Capital), nem lembrava da dificuldade que tem de alimentar sua família. “Agora, eu só rezo por toda aquela gente. Sou sofredor, é verdade. Mas meus quatro filhos ainda estão perto de mim. Isso não tem dinheiro que pague”, dizia ao procurar entulho nos canteiros do Limão, Zona Norte.
A Cidade que não pára nunca parou para homenagear os pais super-heróis que se foram, as filhas princesinhas que não voltarão para casa, os meninos travessos ainda não reconhecidos, as mães com tripla jornada que sumiram, os jovens universitários que não pegarão o diploma, as carreiras promissoras que não crescerão mais....
O MAIOR ACIDENTE DA HISTÓRIA
Na última terça-feira, um Airbus A 320 da TAM com 187 pessoas a bordo, que vinha de Porto Alegre (RS), ao aterrissar, deslizou centenas de metrôs e atravessou a Avenida Washington Luís e bateu no depósito de cargas da TAM, do outro lado da avenida. Além dos passageiros, pelos menos outras 3 pessoas morreram e 9 ainda estão desaparecidas. Foi o maior acidente da história da aviação brasileira.
'A gente chora junto com as famílias. A sensação é que perdi um irmão” ANA LÚCIA SILVA, 31 ANOS FRENTISTA DE UM POSTO DE GASOLINA NA ZONA NORTE
187 pessoas estavam no vôo JJ 3054, que saiu de Porto Alegre na terça feira, às 17h17 e explodiu em SP
'Desliguei a TV, não leio jornal. Já tive síndrome do pânico e minha crise pode voltar. Sinto a dor das famílias” GISLEINE FREITAS, 23 ANOS ASSISTENTE COMERCIAL
'Fica a sensação de vazio. Sentimos o drama de perto e a revolta pela omissão do governo” ROSELI LIMA,32 ANOS EMPRESÁRIA DA REGIÃO DE CONGONHAS
'Sabemos que o aeroporto de Porto Seguro também tem problemas. Podia ser com qualquer pessoa' MARIANNA ROBALLO, 26 ANOS FOTÓGRAFA, MORA NA BAHIA, MAS DIZ ESTAR CHOCADA
40% é a estimativa de queda do movimento de turistas estrangeiros por causa da crise aérea do País
'O acidente me abalou muito. Quem sabe assim crescemos espiritualmente” THAIANA BRITTES, 24 ANOS MORA EM FLORIANÓPOLIS E É PSICÓLOGA
93,5 mil turistas deixaram de vir ao País nos dois primeiros meses de 2007
(Colaborou Naiana Oscar)
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